domingo, 23 de fevereiro de 2014

Meu Brasil brasileiro

Ouvir Carnival (Dvorak) exatamente uma semana antes do carnaval no Brasil foi muito interessante.
Claro que não foi a música que me fez pensar e lembrar do feriado brasileiro, apenas o nome dela.
Não vou dizer que carnaval é a primeira coisa que as pessoas dizem depois que nos apresentamos como brasileiros porque estamos muito próximos da World Cup e das Olimpíadas (de verão). Posso dizer, então, que é a terceira coisa.
E eu sempre tenho que dizer (porque é a verdade) que não vejo os desfiles, que não costumo ir aos bailes, que não ouço "música de carnaval".
Eu praticamente não "sirvo" como brasileira porque não como (nem sei fazer) feijoada, não vou a (e desaconselho fortemente) churrascarias (que são a 4ª coisa que as pessoas dizem), não sei sambar nem realmente me empolgo com o carnaval.
Sou um desapontamento para o que os americanos (que conhecemos) imaginam ser uma "brasileira".
Eu mesma me via assim quando cheguei por aqui. Para a pergunta "what you miss?" a resposta "nothing" era certeira.
Mas, por mais irônico que possa ser, estar longe do Brasil por 1 ano me ensinou o que é ser brasileira para mim.
Primeiro sintoma: estar em um workshop de drum e dança cubana e querer desesperadamente ouvir um samba sair daqueles drums.
Segundo sintoma: andar pelo canal chutando a neve "fresca" como se fosse areia na praia, curtindo o sol nas bochechas com -5ºC.
Descobri que, mesmo tentando fugir das multidões em cada carnaval, o samba, esse ritmo, corre nas minhas veias, compõe meu próprio ritmo. Que, mesmo que meus pés não saibam o que fazer, meu corpo todo vibra ao som da bateria.
Descobri que sinto falta do mar, da areia, do calor úmido e salgado da beira da praia.
Sinto falta de tomar água de coco no coco, de sucos feitos na hora, de ter frutas no quintal.
Para mim, ser brasileira significa reconhecer o som, a língua, o gosto e  a paisagem que me formam.



Carnival? What carnival?

A peça de entrada hoje, no Kodak Hall at Eastman Theatre, foi Carnival Overture Op. 92 de Antonin Dvorák.
Apesar de nunca ter ouvido falar da Eastman School of Music (University of Rochester), ela é uma das mais prestigiadas escolas de música dos EUA, tão importante quanto a Juilliard, mas não tão bem localizada (digamos assim).
E Kodak, só como curiosidade, é aquela marca de máquinas fotográficas e coisas do tipo. George Eastman é o americano que inventou o filme fotográfico, fundou a Kodak, popularizou a fotografia e construiu um "império" por aqui.
Aqui é Rochester, estado de NY, só que mais perto do Canadá do que de NYC.
Eu fui ao concerto desta noite com alguns amigos, todos ansiosos para ouvir Itzhak Perlman, consagrado violinista israelense.
Na verdade, ele tocou apenas uma das três peças que compunham o programa.
Foi impecável.
Em seguida, recebeu the Award of the Honorary Doctor of Music degree do presidente da universidade e mostrou a todos como transformar essas premiações em algo descontraído e leve. Muitas palmas para ele.
E se foi.
E nós ficamos a ouvir a Eastman Philharmonia, que é composta pelos estudantes da escola, tocar alone.
A escola merece o prestígio que têm, eles são ótimos. Incríveis!
But... sácumé?


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

sobre Rosas









Eu colhi uma rosa rapidamente 
Com medo do Jardineiro. 

Então, ouvi sua voz suave 

"Qual o valor de uma rosa? 
Dei a você todo o jardim".

Rumi


Da Alegria e Leveza de Ser

Hare Krishna Hare Krishna
Krishna Krishna
Hare Hare
Hare Rama Hare Rama
Rama Rama
Hare Hare

Religião sempre foi chave mestra nessa minha vida.
Cresci numa família espírita. Estudei, vivi, cantei, amei espiritismo.
Mas a letra estava a sufocar a vida, a religião a sufocar a religiosidade.
A minha, só a minha.
Desfiz, desatei, corri.
Visitei, andei, saboreei. Encantei-me.
Budismos, hinduismo, catolicismo, hare krishna, sufismo...
Movimento bom porque leve.
Vida, Amor, Gratidão e Louvor em cada, em todas, em mim.
Maria aquece meu coração tanto quanto Kwan Yin, Saraswati ou Kali.
Acalento em tantas mães.
Hoje, não procuro entendimento ou razão, desisto completamente de tudo que minha mente pode formular ou abarcar.
Hoje, só o coração ardendo iluminado.
Hoje, só alegria e devoção.
http://letras.mus.br/nando-reis/96641/
Gratidão
Hare Krishna


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Hair 4 lessons

Everything changes


Uma vez, quando era pequena, cortei um pedaço do meu cabelo. Quem nunca?
Foi preciso fazer um corte bem curtinho para consertar meu trabalho.
Desgostei tanto que não queria que ninguém visse, não queria ir pra escola (como se precisasse de mais esse motivo). 
Nem sei se meu desgosto era pelo meu novo visual ou se porque ele evidenciava meu erro, minha incapacidade (eu não sabia, não podia cortar meu próprio cabelo, tinha feito um trabalho horroroso).
Quando eu cresci um tiquinho, veio o desejo de cabelo comprido, muito comprido. 
Nunca queria ir no cabeleireiro, não acreditava quando diziam que era necessário para que continuasse a crescer forte. Que bobagem, pensava eu. Quando finalmente ia, ficava toda tensa, como se pudesse controlar o trabalho do cabeleireiro com a força do meu pensamento. "só um dedinho"... mas a sensação era sempre de que tinha sido demais.
Mas, então, Eu crescI!
Cabelo foi cortado, cresceu, cortado mais, cresceu, mais curto, cresceu.

1ª lição: sempre cresce de novo!
Mudar o comprimento já é alguma coisa, mas eu queria mais!
Queria um corte novo mesmo, pra valer. Pesquisei, analisei, escolhi, imprimi.
Resolvi mudar de profissional também. Escolhi pelo melhor método: intuição.
Passei na frente, gostei, entrei, marquei. Tensão.
Não fiquei com a cara nem com o corte que eu tinha demorado tanto para escolher.
A-do-rei!

2ª lição: escolher não adianta nada. Sem entrar no mérito da montagem das fotos em si, aquele corte serve para aquela pessoa, naquele momento e só ficou daquele jeito pelo trabalho daqueles profissionais. Tudo muito específico, não repetível.
Foi então que me "caiu uma ficha" (que coisa antiga...). A profissional, o especialista são eles, não eu.
Tudo o que eu queria quando era professora era que os pais confiassem em mim. Simplesmente porque eu tinha me preparado para isso e conhecia meu trabalho.
A pessoa com a tesoura na mão sabe o que está fazendo, tem muito mais ideia do que combina com meu rosto do que eu. Ela tem o olhar treinado para isso.

3ª lição: pode confiar
Dali para frente foi um desbunde!
Toda vez que eu sentia vontade de um novo corte, ia a um salão diferente, com quem estivesse disponível e tinha apenas uma exigência: não ficar careca. Ainda não...
Tenho feito isso por 3 anos, em qualquer cidade/país em que eu esteja.
Ontem fui cortar o cabelo mais uma vez.
E, mais uma vez, tive a sensação que a pessoa estava produzindo uma obra de arte.
Sabe aquele momento em que paramos, nos afastamos, olhamos e voltamos para mais um detalhe? É assim toda vez. E isso é muito gostoso!

4ª lição: mudar é tudo de bom
Se teve alguma vez que eu não gostei? Quando repeti o profissional e saí quase do mesmo jeito que entrei.
Se teve alguma vez que eu não me "reconheci" depois? Quase sempre!
Esse é o melhor resultado, para mim. Olhar no espelho e ver outra.

Everything changes



segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Detox

créditos? esse dente de leão está por todo canto 
Desintoxicar a vida.
Quando decidi vir pra cá, criou-se em mim uma imensa vontade de ser outra.
Poder (re)começar a (re)fazer a vida em outro lugar. Outro tempo e espaço.
E então um amiga me disse ( assim correndo, no meio do nosso primeiro almoço juntas): "também já pensei assim. Mas sabe, a gente se carrega pra onde vai".
Já faz quase um ano que me recordo (quase) diariamente dessa fala.
(incrível o poder que temos ao falar, hum?!)
Sim, sempre nos carregamos pra onde quer que vamos. Nós e nossa bagagem: indissociáveis.
Mas era isso mesmo que eu desejava, estar comigo mesma, (re)conhecer eu, eu mesma, euzinha.
E isso, para mim, era o siginificado de uma  nova vida, conseguir separar e abandonar o que não era eu.
E para isso acontecer, a Vida me colocou em outro continente, outro país, outra língua, outra paisagem, outro modo de viver.
Sem profissão, sem parentesco, sem história. A única coisa que sou aqui é "esposa dele".
 (Ego orgulhoso estrebuchando)
Reduzi minha bagagem ao mínino. Trouxe apenas 1 livro, comprado há muito e nunca lido, Pedagogia Profana, J. Larrosa. Leio com carinho, sem desperdício, só quando dá vontade. Estou na metade.
Esvazie-me.
Desfiz-me de todos os papéis cotidianos.
Abri mão de ter coisas e de ser personagens.
Aquietei
Confiei
Ouvi
Morte. Porque o fim é necessário.
VIDA. Porque o vazio é germinativo.